Biscoitos de Valongo: 3 perguntas a uma antiga funcionária de uma fábrica

2022-02-11

Maria das Dores da Silva trabalhou mais de 45 anos no ramo da panificação em Valongo. Mais concretamente, na Fábrica de Biscoitos Paupério, uma das mais antigas ainda em funcionamento. Os afazeres da biscoitaria tornaram-se rotina logo aos 16 anos, idade em que, por intermédio de algumas amigas mais velhas, trocou a vontade de trabalhar no universo das lousas por uma vida mais doce: a azáfama de uma fábrica de biscoitos.  

Agora, de olhos postos nesses tempos, recorda o quotidiano com um sorriso no rosto e com as mãos calejadas. Da conversa descontraída pelas suas memórias, no edifício da Oficina da Regueifa e do Biscoito, criamos este artigo com 3 perguntas a uma antiga funcionária de uma fábrica de biscoitos. Agarre meia dúzia de biscoitos e uma chávena de chá e faça-se à leitura. 

1 - Como é que surgiu a oportunidade de trabalhar numa fábrica de biscoitos?

«Eu tinha lá na Paupério duas colegas minhas, vizinhas, mais velhas que eu. Ao sábado, elas iam ajudar a carregar um camião que seguia para Lisboa, para distribuir biscoitos por vários estabelecimentos. Perguntaram-me se eu não queria ir com elas. Tinha 16 anos... e disse que sim. 

(…) Nesse tempo, também me lembro das mulheres que vendiam biscoitos porta a porta. Conheço, pelo menos, duas pessoas que o faziam. Elas levavam cestas ou gigas como têm as peixeiras, levavam à cabeça com umas sacas grandes e brancas onde punham os biscoitos. Levavam tudo repartido para as pessoas. Iam vender para o Porto no autocarro. Quando acabasse, voltavam à fábrica para buscar mais. A Paupério já tinha carros para levar para Lisboa e para o estrangeiro até. (…) 

Quando comecei a trabalhar lá, comecei nos fornos - a limpar biscoitos e o próprio forno, a limpar tabuleiros... a fazer aquelas “perninhas” para dar às colegas que já sabiam trabalhar, essas tarefas assim. Depois aprendi a fazer tosta rainha, a fazer o biscoito à minha maneira... que pronto, no início eu não sabia, mas a gente vai aperfeiçoando. Sempre gostei de tudo o que fazia na prática. Algum tempo depois já fazia muitas variedades: torcidos, rosca inglesa, rosquinha manteiga, milhos, fidalgos, vinhos, aqueles que parece línguas de gato, amanteigados... 
Em 1959, mais ou menos, quando eu fui para lá, nós éramos 100 funcionários... Éramos mais mulheres (riso). Havia o amassador, 3 forneiros, o encarregado. Eles eram para aí uns 5 homens, mas no escritório e cá em baixo éramos uns 100 funcionários no total.» 

2 - Como era um dia de trabalho típico? Havia rotinas?

«Ah! Sim, sim. Por exemplo, era dia de fazer fidalgos. Nas amassadeiras - a gente batizou uma como “máquina da Maria” porque fazia a bolacha Maria, a torrada e os fidalgos, mas havia também “a sortida” que fazia princesa negra, as de chocolate e as brancas - estava sempre massa a fazer. O resto nós fazíamos à mão. Umas funcionárias iam para as máquinas e outras trabalhavam à mão. 

Trabalhava-se conforme as encomendas. As massas iam-se fazendo umas atrás das outras e os biscoitos também. Um dia andava lá entretida a limpar um forno e, como na altura não havia música, eu costumava cantar. Estava a limpar por dentro, onde se mete os tabuleiros. Quando cheguei lá abaixo, percebi que o patrão me tinha ouvido e pensei que me ia ralhar porque me perguntou o que andava a fazer. Mas não disse nada. Respirei de alívio! (gargalhada)» 

3 - Comparando o trabalho nas biscoitarias e nas padarias, acha que era mais difícil a vida de biscoiteiros ou padeiros? 

«Ser padeiro era uma vida difícil. Dormir de noite não é como dormir de dia! Antigamente também era tudo a lenha. Vinham aquelas pessoas de S. Martinho carregadas trazer lenha. Lá na fábrica, no início, era assim. Depois compraram o forno elétrico e, mais tarde, fizeram obras na fábrica. Nas padarias era a mesma coisa...  

Mas eu também chegava a casa cansada! Ai, pois... com dores nas pernas! Era um trabalho cansativo. Eu preferia ir fazendo várias coisas: umas vezes ia para a máquina do chocolate (que levava a bolacha ao tabuleiro e passava por chocolate), outras vezes estava a embrulhar os biscoitos. Íamos dividindo as tarefas entre colegas. O ordenado também era o mesmo para todas as funcionárias - só o dos homens é que era diferente, eles ganhavam mais.  

O trabalho era muito exigente. Havia uma supervisora e, se a gente fizesse mal feito, ela vinha logo dizer que não queria nada daquilo. Se os biscoitos tivessem uma pontinha mal feita, tinha-se que botar fora [entenda-se para os sacos de raleiro, ainda vendidos hoje em dia]. Havia uma exigência com a qualidade muito grande.»
 

Bárbara Baltarejo