"A Minha Rua", por Purificação Ribeiro

2021-07-31

A rua que me viu nascer, batizada com o nome do dr. Dias Oliveira, um pedaço de chão estreito e íngreme, entalado entre a Igreja Paroquial e o Senhor do Escoural (ou Escoiral) e com um braço que se estende até à Açuda, cheirava a farinha, a lenha queimada e a pão dourado, aromas saídos das chaminés de 4 padarias e de 2 biscoitarias ali instaladas.
Ainda hoje, quando por lá me aventuro, aspiro esses cheiros eternos, entranhados nas pedras da calçada e nas paredes dos prédios de outrora e de agora. As memórias são como as nossas sombras, seguem-nos os passos, os gestos e atitudes, retalhos eternos de um puzzle que nos desenha e formata.
Não há uma só história, há histórias sem fim, escritas em cada uma destas casas, nos braços de quem amassava e tendia o pão e empurrava a pá, nos ombros de quem carregava a lenha para alimentar o forno, no cansaço de quem levava à cabeça os canecos de água da Fonte da Rua para encher o caldeirão.
Tempos árduos, em que se vivia de noite e se dormia de dia, com folga ao domingo para se ir à missa, e para um pequeno passeio com a família, se não chovesse, se não houvesse futebol e se a tasca estivesse fechada.
Das muitas que povoam as minhas memórias, gosto de reviver a Páscoa com as regueifas dos afilhados, grandes como as rodas das camionetas, engalanadas com feitios (puxos, folhas de plantas, palmas, esses, tranças e outros), saídos da imaginação fértil dos artistas da massa.
Eram exibidas orgulhosamente pelos felizardos, que desfilavam pela rua fora com as ditas ao ombro, causando a admiração e o espanto da plateia postada às portas e janelas, que se deliciava a apreciar o tamanho e o peso das ofertas dos padrinhos, bem como dos cachopos lavadinhos de fresco, vestidos com a roupa de ver a Deus – eles de risca bem marcada no cabelo untado de brilhantina para amansar algum pelo mais rebelde e elas, de tranças bem presas com ganchos, travessões e laçarotes garridos comprados na loja do Ti Neca da Tuna.
Ora, na minha casa e padaria, e para que conste para a posteridade, a artista dos feitios era eu. Durante toda a noite, em cima de um mocho, alisava e trabalhava os bocados de massa amontoados diante de mim, transformando-os naquelas peças de arte sem as quais as regueifas não teriam brilho nem beleza!
O meu pai pusera-me a alcunha de “mulher dos feitiços”, porque eu não parava de resmungar e lançar maldições por um trabalho cansativo, que me deixava as mãos e os braços doridos e que só me permitia dormir aos soluços, nos intervalos das fornadas e em cima dos sacos de farinha.
Mas, para me redimir, no dia de Páscoa, logo de manhã cedo, escapulia-me sorrateira até ao Senhor do Cantinho, com ligaduras nos “pulsos abertos” encharcadas em aguardente, a pedir perdão pelos maus fígados e a suplicar-Lhe que ninguém se engasgasse a comer o pão. Desculpava-me com o sono e o cansaço, porque bem lá no fundo Ele sabia que eu até era boa pessoa!
O Senhor, lá no Seu cantinho, ouvia-me atentamente, sorria e, depois de uma Avé-maria apressada, deixava-me partir em sossego, mais leve e sem remorsos a moerem-me a consciência e a alma inquieta.
Nesse Domingo de aleluia, os fornos embebiam-se de mais um cheiro, o dos assados, que inundavam as padarias, o ar e a rua com perfumes de loureiro, colorau, pimenta, alecrim e afins, e que nos excitavam as narinas e os sentidos.
Nem o senhor padre António ficava indiferente a essa azáfama gastronómica, e no sermão dominical, com a sua voz forte, sem rodeios e sem filtro, voz do povo e para o povo, de braço estendido a apontar para todos e para ninguém em especial, bradava para lá do púlpito:
-“Desde manhã cedinho que só ouço o bater dos socos na calçada e vejo o mulherio para cima e para baixo, carregado de assadeiras bem cheirosas para os fornos das padarias. Comam, comam bem e enfrasquem-se melhor, tirem a barriga de misérias, MAS… não se esqueçam de pagar ao merceeiro, ao padeiro e ao carniceiro, que eles também são filhos de Deus e precisam do dinheiro para viver!”
Vivo ainda as noites de S. João, a fogueira enorme ateada pelos padeiros ao cimo da rua, com labaredas gigantes que se erguiam até ao céu e explodiam em mil línguas brilhantes que se desvaneciam nas alturas.
Toda a gente, miúdos e graúdos, rodava à volta da fogueira e provocava o Santo com cantos malandrecos e brejeiros. Os rapazes mais afoitos saltavam as chamas, chamuscando muitas vezes os fundilhos das calças, para gáudio dos assistentes.
O Quim do Abade apresentava a sua grafonola, que só funcionava à manivela, e deliciava o pessoal comas vozes roufenhas dos cantores da moda. O Francisco Ribeiro transmitia, através do seu rádio moderno e potente, cantigas e corridinhos para roda e bailarico e, nessa noite, a rua não dormia, esquecia quezílias e cansaços, dava as mãos em rodopios e requebros, era feita de risos e de união.
Já alta a madrugada, as moçoilas e os moçoilos casadoiros encostavam-se ao Senhor do Escoural e entoavam cantigas ao desafio, bem ensaiadas e com as vozes bem afinadas, acalorando ainda mais a noite estival, sob a proteção da lua feiticeira e do sorriso complacente do Santo, no seu bocado de paraíso.
Naquele pedacinho de mundo havia bastante pobreza. Os que não eram padeiros, eram mineiros, por isso também se respirava o cheiro pungente a pó da lousa, a doença e a miséria.
A vida não é justa. Bate sempre nos mais fracos e desprotegidos e era sobretudo sobre as famílias destas toupeiras humanas, que trabalhavam de sol a sol, sem condições e sem segurança, frequentemente atingidas por desastres mineiros e pela “doença de pó” que lhes ceifava a vida demasiado dedo, que se abatia a infelicidade e a falta de meios de subsistência.
E quantas vezes era apenas o pão que lhes enganava a fome…
Purificação Ribeiro