"Ai os meus socos!", por Purificação Ribeiro

2021-09-30
Socos

Repicam os sinos da Igreja, numa competição alegre e feroz, logo pelas 8 horas de uma manhã que acordou primaveril e soalheira.
Era domingo de Pascoela e em breve sairia a Procissão dos Entrevados (ou, como lhe chamava a garotada, a procissão das campainhas), a percorrer as ruas já enfeitadas de flores. Das janelas das casas pendiam as colchas da renda, de linho, de seda ou de damasco, algumas a cheirar a naftalina, num combate sério às traças manhosas que se deliciavam em as esburacar.
Mimi levantou-se bem cedinho. Tinha de ajudar a mãe a colocar uma mesa junto da porta da entrada, coberta com uma toalha de linho e renda e bordada com malmequeres amarelos, onde eram depositados montinhos de moedas de 1, 2 e 5 tostões, religiosamente poupados desde o ano interior e guardados num pote de barro no armário da cozinha. Acontecia o mesmo em todas as casas por onde passava a procissão. Bem, em todas não, apenas nas casas das pessoas que podiam juntar os tostõezinhos para este dia, porque os mais pobres precisavam deles para comer, não podiam dar-se ao luxo de qualquer poupança.
Aí vinha a procissão! A preceder o senhor padre, que levava nas mãos o Santo Cálice cheio de de hóstias consagradas, protegido por um grande guarda-sol (ou pálio, como era designado pelas pessoas crescidas) todo bordado a fio de ouro e empunhado por 4 homens vigorosos, trajados a rigor com fatos pretos, camisas e luvas brancas e que cachopos acompanhavam o sacerdote no seu calvário santificado, vinha uma revoada de cachopos, felizes e barulhentos, com campainhas prateadas que agitavam freneticamente.
As suas opas brancas esvoaçavam com a correria e o barulho ensurdecedor das ditas campainhas enchiam as ruas de movimento e de alegria. Isto sim é que era uma festa!
Apesar de não haver andores nem anjinhos, era de certeza a procissão mais bonita cá da terra!
As moedas caíam nas campainhas e eram recolhidas pelos mais velhos, para depois serem distribuídas pelos mais carenciados. O senhor padre e os acompanhantes visitavam os enfermos acamados ou que não conseguiam ir visitar Deus na Sua própria casa. Eram comoventes estas visitas e os vizinhos aglomeravam-se junto das portas destes doentes, para rezarem a Deus pela cura do corpo e pela salvação da alma pecadora.
Muito compenetrada do seu papel, a Mimi distribuía alegremente as moedas, que desapareciam a olhos vistos. Junto dela, a Maria Martinha, de cara lavada e esfregada, cabelo bem esticado num puxo repimpado no alto da cabeça, exclamava, comovida:
- Ai môr, que cousa mailinda, esta precissão das Endoenças! O Nosso Sinhor Jasus Criste bao besitar todos os doentes e maribundos nas suas casinhas pobresinhas, e as campainhas são comás trumpetas dos anjinhos do céu, a anunciar a Sua chigada! Inté me bem as lágrimas aos olhos, só num chora quem num é boa gente, Nossa Sinhora bendita!
E fungava, assoava o nariz e limpava os olhos lacrimejantes à ponta do avental com a mão esquerda, que a direita era para fazer o sinal da Cruz!
A Mimi estava duplamente feliz: a tia Micas costureira tinha-lhe feito um vestido novo, de veludo azul da cor do céu, debruado no peito e na bainha da saia com uma fitinha azul escuro, e estava a estriar uns soquinhos com flores pintadas, mas à mão, era bom lembrar!
Tinha visto uns parecidos nos pés de uma boneca espanhola de uma amiga e caiu de amores por eles!
Suplicou ao pai com tanta ansiedade que este não teve coragem de recusar e, pronto, lá foi a Mimi ao Ti Jaquim da Avó, que fazia botas com solas de pneu para os homens e socos de madeira para as mulheres, porque sapatos só para os ricos. A Mimi tinha pezinhos de anjo e os socos tinham que ser feitos por encomenda, por isso o Ti Jaquim lá rapou do lápis que trazia sempre atrás da orelha, pôs-lhe os pés em cima de um cartão grosso e de língua de fora desenhou-lhe a forma para os socos.
Ah, não se esquecesse que deviam ter um bocadinho de tacão, não os queria rapelhos! Nem pretos retinhos, ficavam feios e tristes! E com flores pintadas!
Õ Ti Jaquim esmerou-se e ali estavam eles, tão lindos que até cortava a respiração! Tinha passado vezes sem fim no corredor, ouvindo o bater dos tacões nas lajes de lousa e sentindo-se uma senhora crescida como aquelas que passavam rua abaixo, rua acima, com os toc toc dos tacões a martelarem na calçada de pedra.
Nestes dias de festa, comia-se a melhor galinha criada na capoeira, bem dourada no forno e devidamente acompanhada com batatinhas assadas e arroz branco e sequinho, regada com vinho de lavrador, daquele que deixa os bigodes escursos nos beiços.
Depois do almoço estava combinado o maior jogo da péla do ano, entre casados e solteiros. Seria aferroado, bem renhido e a dinheiro – 5 tostões cada jogada. Os prémios arrecadados eram gastos na tasca do Tonem juntando vencedores e vencidos e ainda a assistência numerosa e ruidosa, para a comemoração da jogatana.
Para além de bem comidos e melhor bebidos, terminavam com bailarico, que não faltavam músicos, bons cantadores e boas cantadeiras e dançarinos de se lhes tirar o chapéu!
A mesa não era arrumada nem a louça lavada, porque as mulheres também tinham direito a participar nas equipas e eram levadas da breca a jogar, diga-se a verdade!
A péla era novinha em folha, feita de meias e panos velhos, cosidos e recosidos, molhados e secos, até se transformarem numa bola redondinha, leve e saltitante, do tamanho da palma da mão.
Começou o jogo! Ao longo da rua, nas portas e nas janelas os assistentes batiam palmas e incitavam os jogadores, e as jogadoras, fiscalizando ao mesmo tempo para verem se as regras eram bem cumpridas, que se queria jogo limpo, sem manhas nem matreirices.
Aferroados e cheios de entusiasmo, os participantes puxavam uns pelos outros, com vocábulos apimentados e acesos, principalmente quando saía algum falhanço. Mas atenção, só aos grandes era dado o direito a esses desabafos de linguagem! Os mais pequenos, para além de se candidatarem ao fogo dos infernos, sofreriam neste mundo a tortura da pimenta na língua, que não se sabe se ardia mais do que as brasas ardentes do demónio!
Continuando a passear os soquinhos numa visita guiada por toda a casa, a Mimi acercou-se da mesa e, com curiosidade, quis conhecer o gosto do vinho proibido. Nada mau, mesmo… e então o vinho do Porto? Era de beber e chorar por mais… uma delícia…
Decorria uma partida feroz e barulhenta, quando a Mimi apareceu no passeio, aos tropeções e se estatelou no chão. O pai interrompeu a jogada e correu para a levantar, até porque ela tinha esmurrado o joelhito e sangrava.
Sentiu-lhe o hálito a vinho e assustou-se: mais tarde confessaria que se lhe tivesse chegado um fósforo à boca, ela pegava fogo como os artistas do circo!
Levantou-a, limpou e desinfetou a ferida com um pano embebido em aguardente que alguém lhe havia levado e que provocou um berreiro desalmado por parte da paciente, e perguntou-lhe já zangado:
- Mimi, o que andaste a fazer, mafarrico de rapariga?
- Não fazi nada meu pai! Não vê que são os caralhos dos nossos socos que escorregam e me fazem cair?
O pobre do pai ficou de boca aberta perante a tirada indignada da Mimi, enquanto esta se endireitava com toda a dignidade possível, afastava com um gesto irritado a repa que teimava em tapar-lhe os olhos e se dirigia para dentro de casa, cambaleante, encostada às paredes, com os socos culpados na mão, sem entender as gargalhadas e as palmas que acompanharam a sua retirada de cena!
Purificação Ribeiro